Nesta terça-feira (03/03), o programa Sem Censura, da TV Brasil anunciou que trataria de um tema “urgente e inadiável”: o combate à violência doméstica e ao feminicídio no Brasil.
“O país registra mais de mil assassinatos de mulheres por ano – e, no último levantamento, houve um recorde histórico: cerca de 1.500 brasileiras mortas, o equivalente a quatro ou cinco vítimas por dia, por motivação de gênero. Um cenário alarmante que exige mobilização, políticas públicas e transformação cultural”, explica a publicação de chamada para o programa.
Como convidadas de Cissa Guimarães, a socióloga e primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, anunciada como “principal articuladora do Pacto dos Três Poderes contra o Feminicídio”, lançado no mês passado pelo Governo Federal; Daniela Grelin, diretora-executiva da organização global No More Foundation, “que acaba de chegar ao Brasil propondo ações de mobilização social, prevenção e mudança de comportamento para dar um basta à violência de gênero”; e Antonia Pellegrino, diretora de conteúdo e programação da Empresa Brasil de Comunicação, apresentando a campanha “Feminicídio Nunca Mais”, realizada pela TV Brasil em parceria com a No More, a UNESCO e a Confederação Brasileira de Futebol.
“O debatedor do dia é o jornalista e criador de conteúdo Muka”. Isso mesmo. Quatro mulheres brancas de classe alta ocupando espaços de poder e decisão e um homem para debater um problema que atinge, estatisticamente, mais mulheres negras e, por consequência, mais mulheres pobres.
Dados fresquinhos: “Uma análise dos 5.729 registros oficiais desse tipo de crime, ocorridos de 2021 a 2024, mostrou que 62,6% das vítimas eram negras, enquanto 36,8% eram brancas. Mulheres indígenas e amarelas somam, cada grupo, 0,3% dos registros. A conclusão é do levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta quarta-feira (4)”. Reportagem publicada na Agência Brasil, que mostrou também que 50% dos crimes de feminicídio ocorrem em cidades pequenas, com até 100 mil habitantes.
O tema é, sem dúvida, muito urgente. Mas o programa tomou um caráter bastante institucional, com a divulgação de um programa do governo e uma ação da TV Brasil. Não vimos representatividade nem trajetórias diversas. Não vieram as histórias de vida, as propostas para avançar de verdade, para além de palavras e campanhas. Foi repetida algumas vezes a importância de se envolver os homens na discussão da violência de gênero. Talvez isso justifique a presença de Muka na bancada.
Os convidados citaram alguns dos casos mais recentes que repercutiram na mídia, como o da Tainara Souza Santos, atropelada e arrastada pelo ex, Douglas Alves da Silva, na Marginal Tietê, em São Paulo, no dia 29 de novembro, vindo a falecer na véspera do natal. E o caso da menina de 12 anos que seria “casada” com um homem de 35 anos em Indianápolis (MG), e foi absolvido da acusação de estupro de vulnerável.
Janja disse que ficou muito comovida com o caso de Tainara e, em conversas com o presidente Lula, ele decidiu lançar o pacto. Janja explicou que não se trata de uma iniciativa nova, mas de uma reorganização das ações que já existem, dando visibilidade para o tema. Inclusive para os poderes públicos nos níveis estaduais e municipais.
Em dado momento, quando Janja falava que mesmo na posição que ocupa, com segurança o tempo todo, sofreu assédio duas vezes, Muka interrompeu a primeira dama para falar do que chamou de assédio sofrido pela presidenta do México, Claudia Sheinbaum. Na verdade, se tratou de uma importunação sexual.
Futebol feminino
No terceiro bloco, Antonia falou da campanha feita em parceria com a No More, utilizando a plataforma já dada pela Copa do Mundo de 2014, para mobilizar contra o feminicídio, ideia que surgiu “quando a gente tomou a decisão editorial em 2023 de trazer o futebol feminino para a TV Brasil”, passando a usar, a partir de 2024, o slogan “A tela do Futebol Feminino”.
“Começamos a aprofundar a conversa este ano, com o desejo de apontar para o diálogo com essa questão. Então pensamos: por que a gente não trazer essa conversa feita entre mulheres para dentro do futebol? Ali acontece muita coisa. A gente tava conversando com a No More, vendo o que podia fazer e veio a Janja com o pacto e esse mundo de possibilidades. Então, a campanha já é um filho do pacto”.
Foi exibido o vídeo da campanha, que seria lançada naquela noite no Cristo Redentor. São vários astros do futebol masculino, como Carlo Ancelotti, Raí de Cafu, e feminino, como Formiga e Gabi Zanotti, falando frases que começam com “Nunca Mais” e são complementadas por justificativas como “ele tava bêbado” e “o que ela fez”. No final, o vídeo chama para o Pacto e fala do lema #TodosPorTodas.
A campanha é apresentada como uma grande inovação, com foco em cidadania. Apesar da importância do tema, a fórmula não é nova. Em 2014, foi gravado um vídeo idêntico com jogadores da National Football League (NFL), a liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos, na campanha No More. Apenas jogadores homens. Mas outros vídeos, com outras personalidades, foram feitos nos anos seguintes pela ONG. Não foi citado em nenhum momento que a campanha era uma ideia importada.
Ainda sobre as transmissões de partidas feita pela TV Brasil, Muka fez a assistência para Pellegrino fazer o gol, dizendo que “foi necessário uma diretora mulher na EBC para o futebol feminino ter espaço”. Ao que a diretora concordou e contou como entrou nesse mundo, sendo convidada pela Nike em 2019 para ser embaixadora da Copa Feminina de Futebol da França, com outras convidadas como Elza Soares e Fernanda Lima, recebendo uma formação sobre o tema. Quando passou a se interessar por futebol feminino.
“Foi na cara de pau, bati lá na CBF, não conhecia ninguém, com o projetinho debaixo do braço e comecei a conversar”, disse ela sobre como foi feito o contrato de transmissão das partidas pela emissora pública.
Mas, na verdade, a TV Brasil começou a transmitir futebol feminino em 2014, com as partidas finais do Campeonato Brasileiro. E em 2015 teve o direito exclusivo de transmissão em canal aberto de todas as partidas. Nos arquivos disponíveis na página da TV Brasil, encontramos o Campeonato Paulista de Futebol Feminino de 2016. Um pouco mais de fidelidade à história da emissora pública seria de bom tom por parte de uma diretora e um debatedor na tela da TV Brasil.
Notamos um importante avanço no debate: o 8 de Março não é mais visto como um dia de homenagens e flores para as mulheres, mas de luta por conquistas tão básicas como continuar viva.
