O que os Estados Unidos fizeram nesse sábado (3) com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, foi uma prisão, uma captura ou um sequestro? A escolha da palavra pelo veículo de imprensa indica de forma clara a adesão ou não à versão apresentada pelos agressores da soberania nacional alheia. Em textos de agências internacionais, como a Reuters, encontramos também o termo “depuseram Maduro”, que significa “destituir alguém do seu cargo”.

Segundo o Dicionário Online de Português, capturar é “prender algo ou alguém; deter, aprisionar; apreender: capturar malfeitores. [Jurídico] Efetuar a prisão de; colocar alguém na cadeia: capturar bandidos”. Prender é “privar alguém da liberdade. Atar, ligar. Impedir, embaraçar”. E sequestrar é “tomar (os bens de outrem) e pô-los em sequestro. Encerrar ou enclausurar ilegalmente; isolar”. 

Ou seja, “capturar” ou “prender” dá um sentido de legalidade para a ação, enquanto “sequestrar” implica uma ação ilegal quando aplicado a pessoas. No caso, Trump alega que Maduro seria o chefe de uma organização narcoterrorista que envia drogas para os Estados Unidos, mas nunca apresentou provas. O indiciamento do presidente venezuelano ocorreu em 2020, no governo anterior de Trump. Mas estudiosos das políticas de drogas rejeitam o uso do termo “narcoestado” para se referir à Venezuela.

As ações militares dos EUA na Venezuela começaram em setembro e assassinaram dezenas de pessoas em bombardeios a barcos no Mar do Caribe nos últimos meses. Os EUA também têm sequestrado navios petroleiros venezuelanos e chegaram a anunciar, em agosto, uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à “captura” de Maduro. Em coletiva de seu resort na Flórida, após Maduro e Flores serem levados para Nova York, Trump disse que os EUA vão administrar a Venezuela e controlar o petróleo do país, que possui as maiores reservas conhecidas.

Diante do direito internacional, os atos foram considerados claramente ilegais e ignoraram o direito à autodeterminação dos povos. O secretário-geral da Organização da Nações Unidas (ONU), António Guterres, declarou que a Carta da ONU foi desrespeitada. O Papa Leão XIV defendeu a soberania da Venezuela. A China afirmou que o comportamento hegemônico dos EUA viola seriamente o direito internacional. A Espanha disse que não vai reconhecer a intervenção. Países vizinhos da América Latina se dividiram, a maioria condenou o ataque, mas houve quem celebrasse o sequestro de Maduro, como a Argentina de Javier Milei. O Conselho de Segurança das Nações Unidas vai debater o tema nesta segunda-feira (5).

O presidente Lula disse, em dezembro, que a invasão da Venezuela seria uma “catástrofe humanitária”. Diante dos fatos, condenou a intervenção e utilizou o termo “captura”:

“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional. Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”.

Portanto, enquanto para a narrativa dos Estados Unidos, Maduro foi “capturado”, diante da soberania dos países, da Carta da Nações Unidas e do direito internacional houve violação às regras legais. Ou seja, sequestro.

 

Agência Brasil

A primeira matéria sobre o sequestro de Maduro publicada pela Agência Brasil usa o termo “capturado”, explicável do ponto de vista da urgência de se dar a notícia e sob que ponto de vista foi dada. No caso, a declaração do próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou neste sábado (03) um ataque em larga escala à Venezuela. A capital Caracas e outras cidades teriam sido atingidas por vias aérea e terrestre. Em manifestação nas redes sociais, Trump afirmou que houve sucesso e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e retirados do país”.

Outra matéria, publicada às 12h04, trazia originalmente o termo “sequestro” no título, que foi suprimido depois, conforme demonstram os prints.

     

Nas inúmeras reportagens publicadas a respeito, encontramos com mais frequência o termo “captura”, embora em alguns textos – nunca nos títulos ou linhas finas – há o uso de “sequestro” e também de “rapto”. Na Radioagência Nacional, foi mais comum o termo “captura”, embora no domingo tenhamos também encontrado “sequestro” em linhas finas.

Uma boa contextualização foi publicada no pé de várias matérias, utilizando o termo “sequestro” para se referir ao que aconteceu com o presidente do Panamá em 1989:

“Entenda

O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela neste fim de semana marca um novo episódio de intervenções diretas de Washington na América Latina. A última vez que os EUA invadiram um país latino-americano foi em 1989, no Panamá, quando os militares norte-americanos sequestraram o então presidente Manuel Noriega, acusando-o de narcotráfico.

Assim como fizeram com Noriega, os Estados Unidos acusam Maduro de liderar um suposto cartel venezuelano De Los Soles, sem apresentar provas. Especialistas em tráfico internacional de drogas questionam a existência desse cartel.

O governo de Donald Trump estava oferecendo uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem Maduro à prisão.

Para críticos, a ação é uma medida geopolítica para afastar a Venezuela de adversários globais dos Estados Unidos – como China e Rússia – além de exercer maior controle sobre o petróleo do país, que é dono das maiores reservas de óleo comprovadas do planeta”

Ou seja, falta nesta cobertura um direcionamento editorial na EBC para entender, explicar e então chamar os atos e os fatos pelo nome certo e que as pessoas reconhecem. Se no conjunto das análises é apontada a clara ilegalidade na ação, então Maduro e Flores foram sequestrados. Inclusive, não há acusações contra ela, o que corrobora ainda mais para o uso do termo. Se, por outro lado, houver a opção da EBC de se usar o eufemismo “capturados”, que se explique de forma explícita e juridicamente o porquê da escolha.

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