Por Carol Barreto, jornalista da EBC

Esta imagem acima foi o máximo que alguns de nós, trabalhadores da EBC, conseguimos ver do presidente Lula na última sexta-feira (22), apesar do plantão feito na porta da empresa entre as 14h e 18:30h. Eu, que tenho pouco mais de um metro e meio, não vi nem isso. Lula foi o entrevistado do dia no programa “Sem Censura” e alguns de nós tentamos, em vão, aproveitar a oportunidade para entregar uma carta ao presidente, além de um mescal mexicano, um exemplar do meu livro autografado e um broche da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública.

Chegamos cedo ao pátio da EBC, alguns numa beca de fazer inveja… fomos então “informados” – seria mais adequado “enxotados” – por um colega da casa em cargo de gerência, que foi infinitamente mais grosseiro conosco do que a própria equipe do GSI, o Gabinete de Segurança Institucional da presidência, que montou um grande aparato em frente à empresa. Quando ainda tentávamos negociar uma aproximação com o Lula, um rapaz da secretaria da presidência me chamou pelo nome. Como não reconheci de pronto, tive que perguntar quem ele era. A resposta: “Rodrigo Marcelino, te conheço da greve da UFRJ de 2012”. Esses meus contatos do movimento estudantil… ele que se prepare porque, ocupando uma posição estratégica nesse nível, de vez em quando será perturbado. Muito gentil e solícito, Rodrigo garantiu a entrega ao presidente da nossa carta, do mescal, do meu livro e do broche. Se esforçou também para que conseguíssemos tirar uma foto com o homem ao final, mas não foi possível – já até imagino quem impediu. Segundo funcionária do GSI, a ordem de restringir a nossa entrada no pátio da empresa onde trabalhamos não foi deles. Ou seja… entendedores entenderão.

Lembrando que quando o presidente esteve na sede da EBC em Brasília, para gavar um episódio do Bom dia, Ministro, naquele 7 de maio de 2024 transformado em Bom dia, Presidente, os trabalhadores e trabalhadoras não foram impedidos de entrar nas instalações da empresa em que trabalham, sendo necessário apenas apresentar o crachá e passar por um detector de metais.

07/05/2024 – O presidente Lula, durante entrevista no programa Bom Dia, Presidente, nos estúdios da EBC. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

07/05/2024 – O presidente Lula, durante entrevista no programa Bom Dia, Presidente, nos estúdios da EBC. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

07/05/2024 – O presidente Lula, durante entrevista no programa Bom Dia, Presidente, nos estúdios da EBC. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

07/05/2024 – O presidente Lula, durante entrevista no programa Bom Dia, Presidente, nos estúdios da EBC. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Tenho fama de terrorista, eu sei, mas assegurei ao pessoal do GSI que naquele dia tinha deixado minhas bombas em casa. Palavra de escoteira. Brincadeiras à parte, é digno de nota que a presidência da EBC se negue a permitir o menor contato de Lula com os trabalhadores. Será medo da pauta que, no final, apresentamos? Sei que a reivindicação de concurso público, em que pese ser essencial numa empresa onde isto não é feito há 13 anos, talvez não interesse a quem tem se notabilizado nos últimos anos por trazer amigas das amigas para cargos comissionados e também para se beneficiarem das assinaturas de contratos com a empresa. Patrimonialismo, a gente vê por aqui.

E, por falar em patrimonialismo, se aos trabalhadores coube se apertar num quadradinho na sarjeta em dia de chuva para tentar ver o presidente, nem todos tiveram o mesmo tratamento: meu ex-companheiro de partido e atual primeiro-damo da EBC, Marcelo Freixo, entrou, bem como os filhos da apresentadora Cissa Guimarães. Quando será que esse pessoal vai aprender que estamos numa empresa pública? Será que algum dia aprenderão?

Uma pena ter restado a mim a sarjeta a vários metros de distância, porque já havia até ensaiado o que ia dizer ao Lula: “presidente, a EBC é potencialmente uma Ferrari, mas às vezes vocês a pilotam como se fosse um Chevette velho. Cortar salário de trabalhador grevista é tratar isso aqui como lata velha. Bora devolver esse dinheiro e fazer concurso público!” Simples e direto, nada ofensivo e no melhor estilo metafórico que ele adora. Certeza que ia curtir, talvez até virasse meu brother. Agora, nunca saberemos.

Diante desse vexame, acho que será necessário repetir o que disse no Encontro da RNCP na presença da presidenta Antonia Pellegrino, mas que ela talvez não tenha ouvido: “Respeitem quem pôde chegar onde a gente chegou”. A gente fica e vocês vão embora, a maioria, aliás, sem deixar para trás qualquer legado digno deste nome. Enquanto a gente comia o pão que o Diabo amassou com o rabo durante os governos Temer e Bolsonaro, a maioria de vocês que hoje ocupam a diretoria da empresa se bobear sequer sabia que a EBC existia. Nós resistimos a censura, assédio e desmonte. Isso ninguém tira de nossos currículos, pois foi marcado a ferro, à base de muita dor. Merecíamos mais que um lugar na sarjeta em dia de chuva. Pelas nossas trajetórias em defesa da comunicação pública – e, ainda que não a tivéssemos, não se justificaria sermos tratados pior que cães sarnentos.

Mas enfim… o que esperar de gente que constrange jornalista importante para saber quem é sua fonte na EBC? Pois sim, sou eu a fonte. E agora, vai me demitir? Entra na fila, que é longa, pois muita gente já teve vontade de fazer isso e sigo aqui graças a uma das maiores conquistas civilizatórias do nosso país: a estabilidade do funcionalismo público. Há quem sinta saudades do “trem da alegria” existente antes da Constituição de 88, quando reinava no serviço público o patrimonialismo. Direito de sentir nostalgia do que quiser esse pessoal até tem. Já direito de constranger jornalistas – da casa ou de fora –, por qualquer motivo, não tem. Mas o que esperar de quem me chamou de rancorosa quando pedi para ver o contrato do “Sem Censura”? Como documento público que é, este pedido nem deveria ser necessário, mas como ele não foi inicialmente disponibilizado, teve que ser feito. Maior autoritarismo que isso não há. Tudo bem, pelo menos rendeu uma bela figurinha:

Senti vergonha alheia na semana passada durante o Encontro da Rede Nacional de Comunicação Pública, quando algumas dessas amigas das amigas, alçadas a altos cargos comissionados na empresa, desfilaram no evento seu rol de “inovações”: o “Sem Censura”, que tem 40 anos, e interprogramas – sim, eu sei, ninguém nunca pensou nisso antes (contém ironia!). Não acho que haja crime algum em comemorar o sucesso do “Sem Censura”, desde que não seja vendido como inovação um programa de 40 anos sem grandes alterações no formato que o consagrou. Poderia ter menos globais e influencers e mais músicos independentes que não fossem agenciados pela produtora da Cissa, mas é um bom programa. A questão é: quando se tem 5 milhões – na maioria das vezes nem precisa tanto -, é bem mais fácil fazer um bom programa.

Falando em programação, vale falar dos 90 anos da Rádio Nacional, a serem celebrados em setembro. Chega a ser melancólico que uma rádio que desempenhou o papel que teve a Nacional na formação da identidade brasileira se encontre na situação de penúria que vemos hoje. Os 90 anos serão comemorados com 90 programetes. Tudo isso feito por três pessoas. E não, esse método guerrilha não é novo na casa: em 2022, nos 100 anos da Rádio MEC, foram somente três pessoas a fazer os 100 programetes que marcaram aquela comemoração. A situação está de tal maneira deteriorada na Rádio Nacional que se seus trabalhadores resolvessem ir ao Simpósio de Rádio, realizado na semana passada na própria EBC, ela teria saído do ar. Essa situação é fruto de uma gestão que só tem olhos para a TV Brasil – e, mais especificamente, para o “Sem Censura”. Nos últimos anos, o prêmio da Rádio MEC deixou de existir presencialmente e as rádios vivem situação difícil, funcionando no “modo vitrolão” a maior parte do tempo.

Por último, mas não menos importante, vamos falar de Lula no “Sem Censura”: conforme o esperado, o presidente esteve bem à vontade num formato que o favorece, uma vez que permite que ele fale à vontade. Contou piadas, fez metáforas, falou de seus programas de governo e de temas da atualidade. A jornalista Luciana Barreto conduziu a coisa de forma jornalística, fazendo perguntas relevantes. Nath Finanças, até por não ser funcionária da EBC, foi mais enfática com o presidente, evitando que ele fugisse de algumas perguntas. Já o único bendito ao fruto da bancada, o comentarista de “A Fazenda” Muka, destoou claramente. O tom bajulador e perguntas que traziam a afirmação de que “segundo especialistas”, porém sem citar quais, nos levam a pensar se os tais especialistas eram Chat GPT e Gemini ou só as vozes na cabeça dele mesmo. Custa nada se preparar um pouco antes de uma entrevista, moço. Conforme esperado, nenhum concursado na bancada. A esses foi reservado somente um aconchegante lugar numa sarjeta chuvosa em frente ao prédio da empresa. E segue o baile…

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