“José Luiz Datena comanda esta cobertura dinâmica dos fatos que impactam o cotidiano da população. Informações em tempo real, análise dos principais acontecimentos do Brasil e do mundo, comentários diretos, entrevistas e prestação de serviço com linguagem clara e acessível. O programa oferece ao ouvinte um panorama completo do início do dia e reforça o papel da Rádio Nacional como referência em jornalismo público, plural e de alcance nacional”.

Essa é a descrição do programa Alô Alô Brasil, que estreou nesta segunda-feira (23) pelas ondas da Rádio Nacional, transmitido de São Paulo e em rede com todas as emissoras da Nacional e mais parceiras da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP) pelo Brasil. O nome do programa, que vai ao ar de 8h às 10h de segunda a sexta-feira, é Alô Alô Brasil, uma referência às primeiras palavras pronunciadas pelo locutor Celso Guimarães na inauguração da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em 12 de setembro de 1936, às 21 horas.

90 anos depois, a emissora pública fala para todo o Brasil pela voz do comunicador popularesco e sensacionalista José Luiz Datena, cuja histórico de violações de direitos humanos é amplamente documentado. Quando a contratação foi anunciada, em dezembro, mais de uma dezena de entidades publicaram notas e artigos com argumentos sobre o porque o apresentador não combina com o Serviço Público de Mídia prestado pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Esta Ouvidoria Cidadã foi uma das que se manifestou contrária à contratação.

Pelo menos na estreia, o dinamismo, o reforço no jornalismo e as análises ficaram só na promessa. O que se ouviu foi muita opinião, pouca contextualização e uma aparente estreia feita na base do improviso, sem roteiro, formalidades ou padronizações. Além de proselitismo político.

No início, após a vinheta anunciando o programa, Datena ficou 26 minutos no ar falando sozinho e no seco, sem nem ao menos uma trilha sonora de fundo para ambientar a atração e dar algum dinamismo. Iniciou destacando a importância histórica da Rádio Nacional e lembrou do início da própria carreira, aos 15 anos, no plantão esportivo de uma rádio. Depois comentou sobre diversos temas, muitos em tom jocoso, como “não sabia que ministro acordava 5 da manhã”, em referência ao convidado que entrevistaria em seguida; e “tem mais nordestino em São Paulo do que no Nordeste”.

Disse que trataria de segurança no programa, tema que o projetou nacionalmente em programas sensacionalistas de TV. Fez afirmações acusatórias levianas como “o crime organizado foi criado pelo estado, que amontoou criminosos nas cadeias” e “temos que combater o crime organizado para não virar a Colômbia de ontem e o México de hoje”. E arrematou com “eu aviso isso há muito tempo, mas os imbecis me chamavam de sensacionalista”. Afirmou que Donald Trump errou ao sequestrar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, mas que Maduro é “um ditador de meia pataca”. E citou a bíblia ao comentar que não é certo sequestrar presidentes de outros países, que “ensina que é preciso ter julgamento” para os criminosos.

Leu um texto que disse ter recebido pelo WhatsApp, sem saber a autoria, que destacava a estreia do programa e a importância da Rádio Nacional. Depois atribuiu o texto ao “André”, sem informar que o André seria o Basbaum, presidente da EBC e presente no estúdio durante a estreia do Alô Alô Brasil. Após o trecho que falou do prêmio recebido pela Nacional de São Paulo, disse que não estava ali para ganhar prêmio, “mas pra dar porrada em todo mundo, não importa se de direita ou de esquerda”.

Também falou, sozinho, sobre a infiltração do crime organizado na Faria Lima e na Bolsa de Valores e sobre o caso do Banco Master, afirmando que o banqueiro Daniel Vorcaro tinha que ser obrigado a depor. E, ao introduzir o convidado, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, disse que sente falta de políticos como Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, “do Maluf não sinto falta não”. Exaltou as belezas do Brasil e disse que sonha “como John Lennon, em ver um país sem fronteiras, apenas com sotaques”.

O primeiro tema da entrevista com Boulos foi “a questão dos indígenas no Tapajós, porque no Norte o rio é a rua e o projeto aprovado pelo governo, botou em risco os rios dos indígenas”. O ministro disse que a reivindicação é justa e falou sobre o que o governo está fazendo para resolver a questão. Mas nenhum dos dois explicou o que está acontecendo. No caso, os protestos contra o Decreto nº 12.600, de agosto de 2025, que inclui as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND).

Toda a entrevista aconteceu em um tom bastante governista, com o ministro defendendo as pautas do governo e apontando comportamentos de opositores que considera inadequados. Dois temas tratados na entrevista, listados por Boulos como prioridades do governo, viraram matérias declaratórias na Agência Brasil: o fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança Pública. Tal prática já é comum decorrente das entrevistas dadas ao programa Bom Dia Ministro, da Rádio Gov. Portanto, vemos aqui um uso do espaço das rádios e agência públicas para fazer comunicação de governo.

Na conversa sobre a PEC da Segurança Pública, Datena insistiu que Boulos dissesse quem seria o ministro no caso de uma separação da pasta da Justiça em dois ministérios. Ao que Boulos afirmou que indicação de ministro é uma prerrogativa do presidente, Datena sugeriu que assumisse um futuro Ministério da Segurança Pública o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, segundo o apresentador, o maior especialista em crime organizado no Brasil e perseguido pela organização criminosa PCC.

Mais adiante no programa, Datena entrevistou ao vivo, rapidamente, o próprio Gakiya, que falou sobre a situação do crime organizado ligado ao narcotráfico no México, e insistiu que, se nada for feito no Brasil, o país poderá em breve viver a mesma situação. “Já estamos numa situação gravíssima, temos até fabricação de armas aqui, outro dia apreenderam um fuzil fabricado com impressora”.

Após quase uma hora e meia de programa, Datena iniciou o “giro da reportagem”, chamando jornalistas de outras praças. Participaram pessoas de Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife e Manaus, com temas tão diversos como o julgamento dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e o início dos festejos juninos em Recife. Alguns entraram como uma conversa com o apresentador, outros com um boletim fechado sem ao menos cumprimentar Datena ou a audiência.

Também participou do giro o jornalista Jamil Chade, de Genebra, um dos comentaristas do programa de análise geopolítica Brasil no Mundo, da TV Brasil, falando sobre a viagem do presidente Lula à Ásia. A última participação foi do cantor Falcão, que cantou uma música de carnaval de sua autoria, sendo acompanhado no refrão pelo apresentador e outras pessoas presentes no estúdio da Nacional. Com o cantor, Datena também comentou sobre o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Lula na Sapucaí. “Estamos numa empresa estatal, temos que falar que foi bom”, apesar de os dois terem admitido que não assistiram ao  desfile.

As informações de serviço entraram apenas no final do programa, com a notícia de que o governo de São Paulo quer fechar a Fundação para o Remédio Popular (FURP) e sobre o deslizamento na Rodovia Tamoios, no litoral norte paulista, que pode ter resultado em pelo menos uma morte.

Ao fim do programa, arrastado e nada dinâmico, não foi lida nenhuma ficha técnica. Não sabemos quem trabalha na produção, não ficamos sabendo das principais notícias do dia e nem da situação de momento das principais cidades do país, o tipo de serviço que se espera de um programa de rádio. Mas sabemos quais são as prioridades do governo, a opinião do apresentador sobre vários temas e como ele pretende atuar na comunicação pública: “dando porrada em todo mundo”, apesar de ter sido bastante gentil com os temas trazidos pelo ministro. Tudo isso embalado sem trilha sonora de fundo, sem contexto nem contraponto.

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