Por Carol Barreto, jornalista da EBC
Anos eleitorais como este exigem da comunicação pública uma série de cuidados para que não haja qualquer uso político dela, nenhum tipo de proselitismo. Isso, inclusive, está na Lei de criação da EBC, nº 11.652/2008. Ou deveriam exigir. Infelizmente, não é o que tem sido visto no programa de entrevistas Na mesa com Datena, de José Luiz Datena, exibido às terças-feiras na TV Brasil, às 21h. Nesta semana, foi ao ar a entrevista feita pelo apresentador pré-candidato pelo PSB ao cargo de deputado federal, com o também pré-candidato pelo PT ao mesmo cargo, além de primeiro-damo da empresa, Marcelo Freixo.
É subestimar muito a audiência acreditar que ninguém vai perceber que existe um problema aí. Neste caso, um duplo problema: a um só tempo, proselitismo político e patrimonialismo. Lembremos que Freixo e os filhos de Cissa Guimarães, diferente dos trabalhadores da EBC, tiveram acesso ao presidente Lula no dia em que este esteve na EBC para participar do Sem Censura. Só que à mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta. E esse estado de coisas pode ser e parecer tudo, menos honesto.
Datena, que se notabilizara pela produção de programas policialescos em nada afins à missão pública de defesa dos direitos humanos da EBC, foi contratado a peso de ouro sob protestos dos comitês de participação social e da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública, além de diversas outras entidades. Desde a estreia, em 10 de março, já entrevistou quatro políticos do PSB – seu partido – que serão candidatos em outubro. Não pensem que ninguém está reparando, porque está. A jogada de Datena, inclusive, nos parece muito clara agora: veio para a EBC ganhar 4 meses de holofote – e altos salários – para alavancar a própria candidatura. A comunicação pública não pode e nem deve se prestar a este papel.
A direção da EBC anunciou que ele “só” fica no ar até 30 de junho, por questões contratuais e pelas restrições do período eleitoral, quando candidatos não podem ter o privilégio midiático de comandarem programas na TV ou em emissoras de rádio. Como assim “só”, meus amigos? Um mês é uma eternidade para quem tem exibido este tipo de comportamento e já se mostrou mais de uma vez incontrolável ao microfone. Vai dar ruim – já deu – e, mais uma vez, nós avisamos.
