Falta de visibilidade compromete cobertura do Mundial Feminino

Rodrigo P. Ricardo*

A Rádio Nacional completa 90 anos celebrando uma trajetória que moldou a identidade brasileira. Além da informação e da programação musical, uma marca da emissora é a cobertura esportiva. Nos últimos anos, a rádio lançou bordões, difundiu vozes e popularizou os times cariocas pelo país. Em 2024, inovou de novo. Contratou, pela primeira vez em sua história, uma mulher para narrar o futebol: Luciana Zogaib, que vem se destacando no setor. No entanto, o esporte na Nacional, em ano de Copa do Mundo de Futebol e às vésperas do Mundial Feminino, que será no Brasil, em 2027, necessita de investimentos.

Atualmente, toda a cobertura esportiva da Rádio — sem contar as transmissões de futebol — resume-se a meia hora de programação diária. Dentro desse tempo, apenas 5% do noticiário dedica-se aos esportes olímpicos e paralímpicos. No passado recente, a emissora fazia o Stadium, programa que divulgava essas modalidades. Agora, o Stadium se tornou um quadro no programa radiofônico No Mundo da Bola. As transmissões de futebol, que já tiveram ícones como João Saldanha, Jorge Cury e José Carlos Araújo, só acontecem em dois dias da semana, a reboque do que a televisão aberta (TV Globo) transmitirá.

Atualmente, somos escravos do “geladão”, a chamada transmissão off-tube. A Rádio Nacional já teve cabines para a equipe de comentaristas e locutores nos principais estádios da cidade (Maracanã, São Januário e Nilton Santos). Hoje, as transmissões são um “Frankenstein”: a partida acontece no Maracanã, o narrador está em Brasília diante de um monitor e o repórter ou comentarista nos estúdios, no centro do Rio, bem longe dos gramados. São raras as coberturas in loco, como a da final do Campeonato Carioca ou do jogo de despedida da Seleção Brasileira. Apesar de importantes, são ações espasmódicas, que carecem de continuidade para que ganhem audiência e relevância. A equipe de Esportes busca estar presente nos estádios, porém, as iniciativas esbarram em negativas burocráticas, técnicas ou operacionais de outras áreas da empresa. Ou seja, falta prioridade.

Além do confinamento físico, enfrentamos o isolamento digital. Falta-nos presença nas redes sociais da emissora e da EBC, a partir da distribuição de cortes dos melhores momentos de nossas transmissões e de trechos com as análises detalhadas de nossos comentaristas. Essa visibilidade seria fundamental para o setor, inclusive para destacar o trabalho inédito e precursor de nossas colegas locutoras, comentaristas e repórteres. É preciso se atualizar.

Aproveitamos ainda para sugerir à EBC: caso não seja possível comprar os direitos de transmissão da Copa Feminina 2027 para a TV Brasil, que tente adquiri-los para a Rádio Nacional. Seria um ato pioneiro e colocaria a Nacional de novo na vanguarda.

Celebrar a Rádio Nacional é reverenciar a cultura e a identidade nacional, das quais o esporte, sobretudo o futebol, faz parte. Por isso, os problemas estruturais  — incluindo a falta de profissionais concursados  — precisam ser resolvidos. 

*Jornalista da EBC desde 2014

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