O anúncio de que a EBC faria uma cobertura grandiosa do 7 de setembro (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-09/acompanhe-os-principais-eventos-do-7-de-setembro-na-ebc), “para celebrar uma das datas mais patrióticas do ano”, gerou grande expectativa sobre o que seria colocado no ar pelos veículos públicos no Dia da Independência.

“O 7 de setembro será mais verde e amarelo com a EBC. #VemVer”, alardeou a empresa. Fora o estranhamento da forma “vem ver”, que apesar de correta pode soar não familiar para grande parte do país, que não tem o costume de utilizar o pronome pessoal “tu” e sim o pronome de tratamento “você”, encontramos erro de concordância no gerador de caracteres durante a apresentação da Esquadrilha da Fumaça. A legenda dizia “Show de acrobacias pintam o céu de Brasília”, quando o verbo deveria concordar com o núcleo do sujeito, portanto show de acrobacias pinta o céu de Brasília.

 

 

Enquanto o Brasil temia a ameaça de um golpe no dia da Independência, propalada de maneira subentendida pelo próprio presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores mais fiéis, que organizaram grandes atos pelo Brasil com a chegada de caravanas em Brasília e em São Paulo, o medo com relação à EBC é que a empresa pública servisse de veículo oficial desse possível golpe.

Mas o que se viu nos veículos públicos não foi tão espetacular assim. Ainda bem!

 

Agência Brasil

A cobertura feita pela Agência Brasil do ato realizado na capital paulista com a participação do presidente Jair Bolsonaro ficou apenas no declaratório, apesar de o presidente insistir em desqualificar as urnas eletrônicas e atacar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-09/presidente-discursa-em-manifestacao-de-apoiadores-em-sp).

O ato defendia pautas que atentam contra a democracia, como pedido de impeachment dos ministros do STF e de intervenção militar. A matéria cita esses dois motes do ato, no entanto, a expressão utilizada por diversos veículos da imprensa, especialistas e autoridades – pautas antidemocráticas – ficou de fora da reportagem.

No texto, entraram falas do presidente em ataque ao ministro do STF Alexandre de Moraes e a Agência Brasil informou que os manifestantes protestavam contra a corte. Porém, a matéria não contextualizou o leitor sobre a relação do presidente com o STF atualmente: Bolsonaro é alvo de quatro investigações no Supremo.

Essa informação entrou na matéria feita sobre o ato de Brasília, que ocorreu pela manhã (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-09/presidente-bolsonaro-participa-de-manifestacao-pro-governo-em-brasilia). Mas, da mesma forma que a matéria de São Paulo, o texto publicado traz apenas o declaratório de Bolsonaro fazendo diversas acusações sem lastro.

Ao acusar o atual modelo da eleição no país de “farsa”, Bolsonaro fez críticas a Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Bolsonaro pediu “eleições limpas, auditáveis e com contagem pública”, além de sugerir que o atual sistema eleitoral não oferece segurança.

Apesar de a própria Agência Brasil já ter publicado, no ano passado, matéria em que o TSE rebatia acusações de insegurança no sistema eleitoral brasileiro (https://agenciabrasil.ebc.com.br/eleicoes-2020/noticia/2020-11/agencia-brasil-explica-como-funciona-urna-eletronica), não houve contextualização para o leitor sobre este posicionamento. Ou seja, não houve contraditório e a Agência Brasil não deu espaço para “o outro lado”, tão caro à prática jornalística.

Nos discursos, Bolsonaro voltou a responsabilizar governadores e prefeitos sobre medidas de isolamento social para combater a disseminação da pandemia de Covid-19. Mais uma vez, não houve espaço para dizer o óbvio: especialistas apontam o isolamento social como uma das medidas mais eficientes para evitar o espalhamento do vírus.

A posição do TSE sobre os ataques foi publicada apenas dois dias depois pela Agência Brasil, com reportagem baseada em discurso de Barroso na corte (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-09/presidente-do-tse-defende-sistema-eleitoral-e-rebate-bolsonaro).

 

 

TV Brasil (GOV)

Para uma transmissão de 7 de setembro que já chegou a ficar mais de 4 horas e meia ao vivo com o desfile da independência, as 2h02min05s da cerimônia de hasteamento da está até de bom tamanho (https://www.youtube.com/watch?v=1IgGIK2gYTQ&list=PLhWY8l8K2BUPT5n0psi8yqovZMrqDUGtr&index=3).

Mas, além do “programa especial”, exibido das 8h às 11h, que contou com a participação do historiador e presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira e dentro do qual foi exibida a cerimônia, os jornais também destacaram os atos.

Mas a cobertura do 7 de setembro nos telejornais nacionais da TV Brasil (Repórter Brasil Tarde e Noite,) foi bastante limitada, marcada por ufanismo e registros superficiais dos atos. Os jornais ignoraram as pautas antidemocráticas presentes nas manifestações populares e nos pronunciamentos das autoridades envolvidas nas principais polêmicas do dia. Por um lado, é bom não repercutir acusações sem provas se a intenção não for contextualizá-las ou rebatê-las. Por outro, os telespectadores da TV pública ficaram por fora das notícias do dia e viram apenas a uma bela festa em verde e amarelo.

Os telejornais locais (Repórter DF, Repórter SP e Repórter Rio) simplesmente ignoraram a data, apesar de as três capitais terem abrigado as maiores manifestações registradas no país, tanto a favor quanto contra o governo.

A abertura do Repórter Brasil Tarde foi com um vivo do repórter Giuliano Cartaxo na frente do Palácio da Alvorada, já sem a população que assistiu a cerimônias de hasteamento da bandeira e a Esquadrilha da Fumaça, principal atração do evento.

O repórter relatou a concentração popular apenas como uma festa patriótica de famílias passeando no feriado da Independência e fez referência ao clima seco e quente daquele dia. Em seguida entrou um VT sobre a cerimônia ocorrida naquela manhã, centrado nas manobras militares apresentadas pelas Forças Armadas. Não houve referência ao fato do presidente, bem como toda a comitiva que o acompanhava de perto, não utilizar máscaras, mesmo sendo obrigatório em Brasília.

Na sequência, o apresentador do telejornal, Luiz Carlos Braga, falou das manifestações pró-governo que ocorreram em algumas cidades, coberto por imagens do ato na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Não houve qualquer referência ao fato de a manifestação ter sido conclamada nos dias anteriores pelo próprio presidente da República (inclusive com matéria na Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-09/presidente-bolsonaro-convida-populacao-ir-ruas-amanha), chamando a população a prestar apoio a ele próprio e contra o Supremo Tribunal Federal (STF).

O registro também ignorou completamente as pautas anticonstitucionais e antidemocráticas presentes nos discursos e cartazes dos atos governistas, como pedido de fechamento do STF, retorno dos militares ao comando do país, liberação de armamentos para população civil, entre outros. Não houve, tampouco, qualquer registro do discurso do presidente Bolsonaro, onde ele atacou os ministros do STF e falou na necessidade de “enquadrar” membros da instituição. Novamente, nada sobre a ausência de máscaras entre os manifestantes pró-governo aglomerados.

Em seguida, também em off vivo coberto com imagens de Brasília, o apresentador falou que houve uma manifestação contra o governo, no mesmo local onde ocorria a concentração do tradicional Grito dos Excluídos. Porém, as pautas do ato, como a alta da inflação e do preço dos combustíveis, do gás e dos alimentos, a desvalorização cambial e os pedidos por vacinas para todos, foram ignoradas.

Uma surpresa positiva foi a menção de que a manifestação em Brasília ocorria no mesmo local onde estava o acampamento indígena contra o Marco Temporal, em pauta de votação no STF. Apesar de não esclarecer o que era o Marco Temporal, a simples menção chamou a atenção, uma vez que o tema vinha tendo pouco destaque no mesmo telejornal.

A cobertura na edição da noite do Repórter Brasil seguiu a mesma linha de registrar sem aprofundamento atos contra e a favor do governo, sem mencionar as pautas presentes em cada um dos grupos, nem as palavras do presidente ou a reação do STF diante dos ataques. Disfarçada sob a forma de um falso equilíbrio entre apoio e protestos, a cobertura do 7 de setembro foi esvaziada dos principais debates por trás dos atos que marcaram a data no país. Não houve transmissão ao vivo do ato na Avenida Paulista, ocorrido na parte da tarde e que contou com discurso “no calor do momento” do presidente Bolsonaro.

No dia 9 uma publicação na Agência Brasil destacou que a TV alcançou picos com o terceiro lugar na audiência com a transmissão do 7 de setembro (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-09/transmissao-do-7-de-setembro-leva-tv-brasil-ao-4o-lugar-na-audiencia).

 

Rádios

As rádios Nacional da Amazônia, do Alto Solimões, do Rio de Janeiro e de Brasília retransmitiram trechos da cobertura da TV Brasil na manhã do dia 7 de setembro, incluindo o passeio no Rolls-Royce presidencial dirigido pelo ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet e a apresentação da Esquadrilha da Fumaça.

Detalhe para o anúncio na matéria da Agência Brasil que trouxe os destaques da programação de que “nos dias 6, 8, 9 e 10 de setembro, A Voz do Brasil veicula conteúdo especial a partir das 19h.” Como se a Voz do Brasil fosse apenas mais um programa dos veículos da EBC, e não uma prestação de serviço da EBC ao governo federal.

A surpresa positiva foi a capa da Radioagência Nacional ostentar, durante toda a manhã, uma contextualização que desfaz o glamour em torno do quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, que não retrata a realidade do fato e glamoriza o grito de Don Pedro I (https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/politica/audio/2021-09/quadro-mais-famoso-da-independencia-do-brasil-nao-retratou-realidade).

 

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