Com todos os funcionários do Serviço de Língua Estrangeira (SLE) da Agência Brasil tendo aderido à greve da EBC, a empresa passou a utilizar aplicativos de tradução automática para não deixar as páginas em inglês e em espanhol paradas. Sem a devida seleção dos textos, nem contextualização e ao menos uma revisão das traduções feitas por “inteligência artificial”, o resultado é um desastre. Confira o manifesto divulgado pelos empregados e empregadas do SLE da ABr.

 

Manifesto do serviço de Língua Estrangeira da Agência Brasil

Dezembro/2021

 

Quem hoje acesse as páginas da Agência Brasil em espanhol e inglês verá dezenas de matérias “traduzidas” por “inteligência artificial”, neste caso um termo chique para tradução automática, ou seja, aquele tipo de tradução feita pelo Google. A utilização deste recurso, da maneira como vem
sendo feita, desqualifica o trabalho realizado há mais de uma década pelo Serviço de Língua Estrangeira, setor responsável de selecionar, contextualizar, preparar e traduzir matérias da Agência, em inglês e espanhol, tendo como alvo o público estrangeiro. Para fazer esse trabalho, contamos com uma editora experiente e tradutores concursados, com qualificação para este tipo de tarefa e muito mais, já que também atendemos demandas de tradução corporativa e de conteúdos audiovisuais da TV Brasil, entre outras.

É certo que a situação atual das páginas da Agência em inglês e espanhol, que começaram a receber uma enxurrada de textos aleatórios e mal traduzidos justamente na nossa ausência, ao aderirmos à greve, não só humilha nossos profissionais como também desmoraliza a empresa e faz
o Brasil passar uma grande vergonha. A inteligência artificial que assina os textos sem supervisão é um elogio à ignorância. Como chegamos a esse ponto?

 

Histórico
Entre junho e julho deste ano, fomos abordados por Juliana Andrade e Bruna Saniele para analisar o resultado produzido por diversas ferramentas de tradução automática visando adotar alguma delas em complementariedade ao nosso trabalho. A ideia era que, além do trabalho realizado
diariamente, “revisaríamos” ocasionalmente algumas traduções automáticas. O objetivo seria aumentar a produção.

Aqui cabe um parêntesis. Ao contrário do que se possa pensar, os tradutores não são pessoas antiquadas, avessas à tecnologia, temerosas de serem substituídas por máquinas. O trabalho do tradutor moderno incorpora tecnologias avançadas, inclusive, mas não só, a tradução automática.
Isso porque a tradução dita automática não é nada automática. Seu uso correto em ambiente de produção depende de tradutores com competências linguísticas e técnicas específicas, além de um conjunto de processos e ferramentas adequadas ao trabalho. Portanto, imaginar que uma aplicação
sozinha possa produzir textos jornalísticos suficientemente razoáveis em outra língua, sem nenhum preparo prévio e bastando uma “revisão” do tradutor, mostra ignorância.

Claro, ignorância não é crime. Entendemos que existem muitas concepções errôneas sobre a área de tradução, e parte da rotina de todo tradutor é educar e desfazer equívocos. Na empresa mesmo, em várias ocasiões, fomos abordados por diversos setores para “dar uma ajeitadinha” em
traduções amadoras ou automáticas, e validá-las como fidedignas, com prazo “para ontem”. Na maioria desses casos, era preciso refazer a tradução do zero, o que exigia muitas horas ou jornadas de trabalho, especialmente quando se tratava de documentos importantes, em que uma tradução
errada pode causar graves desentendimentos ou até prejuízos financeiros.

Assim, nessa ocasião mais recente, tecemos uma série de considerações e sugerimos uma solução híbrida, contemplando diversos recursos no âmbito da tradução de máquina e da tradução assistida por computador. Alertamos, ainda, sobre o fato de que, embora o uso desses recursos
pudesse ajudar a conferir mais qualidade e consistência à produção, não iria magicamente aumentá-la sem a elaboração de um plano e o investimento em ampliar a equipe com força de trabalho qualificada. De inglês, por exemplo, temos apenas 1 tradutor. Como em outras vezes no passado, nos colocamos a disposição para auxiliar na implementação de recursos técnicos e fluxos de trabalho mais alinhados ao mercado profissional de tradução, para dar mais qualidade, produtividade e visibilidade ao nosso serviço dentro e fora da empresa.

A resposta foi um agradecimento às nossas “importantes contribuições”. Era um estudo em fase preliminar, nos disseram. Meses se passaram sem nenhuma novidade a respeito. Em 12 de novembro, recebemos um e-mail anunciado mudanças no design das páginas em inglês e espanhol.
O mesmo e-mail dizia que a mudança fazia parte “de um processo de melhorias no Serviço de Língua Estrangeira (SLE), que engloba também a tradução automatizada de conteúdos, o que ampliará o número de matérias publicadas e dará maior visibilidade e relevância ao setor”. Até então, não
sabíamos da existência de um “processo de mudanças”, e ainda não sabemos em que consiste exatamente ou quem está nele envolvido. Tampouco tomamos conhecimento de proposta com etapas previstas, cronograma ou qualquer coisa do tipo. Principalmente, não fomos convidados a
participar de nada disso.

Por fim, tirando de lado o critério questionável de quantidade sobre qualidade, fica a questão: Em que se embasa a associação entre o uso de tradução automática e um suposto aumento de visibilidade e relevância das nossas páginas? Com certeza em nenhuma opinião especializada, afinal,
os especialistas de fato foram ignorados. O resultado é este: O Brasil e a EBC passando vergonha. Elencamos abaixo algumas das matérias recentemente traduzidas pela “inteligência artificial” e publicadas na Agência Brasil. Além de traduções absolutamente equivocadas e/ou inapropriadas existem problemas em diversos níveis, como o descarte total de todos os nossos padrões e convenções editoriais (medidas, moedas, siglas, tradução de nomes próprios), a ausência de qualquer contextualização, inclusive no título, e a cobertura de assuntos que não são pauta do SLE, como acontecimentos locais e pautas que não envolvem o Brasil. Para cada matéria listada, destacamos apenas um ou dois aspectos.

 

INGLÊS
Matéria: Deadline for requesting replication of Enem ends this Friday

“Replication” não se aplica. O erro se repete ao longo da matéria.

A linha fina “The order is made through the Participant Page” não diz absolutamente nada ao leitor anglófono. A palavra “order” não se aplica a este contexto e não está claro o que quer dizer Participant Page.

 

Matéria: Judge annuls Palocci’s conviction in Lava Jato lawsuit

Em “(…), who is the reporter for the Lava Jato at the STJ and is on medical leave”, “reporter” não é uma tradução adequada para “relator”.

 

Matéria: CNI: seven out of 10 industries have difficulty buying input

“Input” não quer dizer “insumo” neste contexto. O erro se repete na matéria, inclusive em um dos intertítulos, que por sua vez não parecem seguir a mesma regra de uso de maiúsculas.

 

ESPANHOL
Matéria: Sobreviviente de beso en club nocturno escuchado en el primer día del juicio

O sintagma “boate Kiss” é grotescamente traduzido como “beso en club nocturno”.

A linha fina “El jurado debería durar unos 15 días. 242 personas murieron en el” é exemplo de enunciado incompleto e absoluto descuido.

 

Matéria: Gobernador BR envía mensajes para ofrecer servicios públicos digitales

O título “Gobernador BR envía mensajes para ofrecer servicios públicos digitales” usa “Governador BR” como uma grotesca tradução para o app Gov.br.

A linha fina “Notifica al gobernador Br, del Ministerio de Economía, que entró en la” está absolutamente sem sentido e incompleta.

 

Matéria: Brasil tiene 11,400 nuevos casos de covid-19 y 283 muertes en 24 horas

Em diversas menções a matéria utiliza vírgulas para separar as unidades de milhar, o que ocorre em inglês, mas não em espanhol.

A linha fina “El total de personas infectadas por la enfermedad asciende a 22,10” está incompleta e também usando inadequadamente a vírgula para separar a casa do milhar.

 

Matéria: GLA y el Ayuntamiento abren el Circuito de Literatura en Río

O próprio título, que traz “GLA” como sigla em espanhol para a Academia Brasileira de Letras, não faz nenhum sentido.

 

Matéria: La primera cuota de la decimotercera debe pagarse hasta el día de hoy

O texto utiliza “decimotercer” e “decimotercera” como traduções para o nosso 13º salário, o que também não faz nenhum sentido em espanhol. Além disso, que relevância tem, para o público estrangeiro, o pagamento da primeira parcela do 13º salário

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados *

Postar Comentário