O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, foi o entrevistado do dia 24 de janeiro do Sem Censura, na TV Brasil. Mais uma vez, o programa abriu espaço para a propaganda do governo, sem contraponto nem contestações, mesmo diante de declarações negacionistas.

Já de início, chama a atenção nesta edição do Sem Censura que, diferentemente da primeira entrevista com Queiroga ao programa, em 2021, o ministro da saúde bem como os dois jornalistas convidados aparecem o tempo todo sem máscara, apesar dos recordes de contaminação pelo novo coronavírus no Brasil naquele momento. O cuidado com distanciamento também não é mais tão intenso, já que, apesar da grande dimensão do estúdio, em mais de um momento a apresentadora Marina Machado fica próxima ao convidado José Maria Trindade, apoiando sua caneca de água e seu material de apoio na mesma mesa que ele. Ao final do programa, enquanto sobem os créditos, é possível ver todos, incluindo Queiroga, se cumprimentando sem máscaras, com apertos de mãos. O tema do dia é saúde, mas os cuidados sanitários foram esquecidos nesse momento de pandemia.

A linha que deveria separar entrevista independente e programa institucional é ultrapassada diversas vezes, como durante as apresentações de vídeos institucionais do Ministério da Saúde, ocupando tempo que poderia ser utilizado para Queiroga ser questionado. Foram três vídeos ao longo do programa: um com números da vacinação, no momento de apresentação do perfil do convidado; o vídeo do programa governamental “Cuida Mais Brasil”, ao final do qual a apresentadora exalta o programa sem fazer nenhuma pergunta concreta sobre a implantação do mesmo no país; e mais um vídeo sobre a vacinação, bastante parecido com o da abertura.

Questionado pelos entrevistadores sobre a possibilidade de o governo federal ter uma conduta negacionista e um estigma antivacina, Queiroga respondeu, ao menos três vezes, que se tratam de “narrativas”. O ministro usou os números de vacinação para justificar que o governo federal não cabe em tal estigma.

O presidente da República Jair Bolsonaro já se referiu à covid-19, que já matou mais 630 mil brasileiros desde o início da pandemia, como “gripezinha”. Em suas declarações, o presidente buscou minimizar os efeitos da doença no país, além de criticar com frequência as medidas de distanciamento social, já comprovadas como uma forma eficaz de combate à pandemia. A Folha de S. Paulo listou alguns destaques em que Bolsonaro desacreditou a gravidade da situação, incentivou o uso de medicamentos sem comprovação científica contra a covid-19, além de discursos do presidente contra as orientações das autoridades mundiais de saúde.

Apesar de utilizar em diversos momentos os números da vacinação em seu favor, Queiroga emendou que “o grande fator pró-vacina no Brasil é a política do governo de dar a liberdade às pessoas de buscarem as vacinas”, lembrando que o país tem uma forte cultura vacinal, mas dando margem à desobrigação da vacinação contra a covid-19. Segundo o ministro, se neste momento o país quiser obrigar “aquele pequeno número de pessoas” que não querem se vacinar, elas acabariam se revoltando e isso atrapalharia o desenvolvimento da atual campanha de vacinação. No entanto, fatos registrados pela imprensa demonstram que o próprio governo federal incentiva o movimento antivacina.

O presidente Bolsonaro recentemente fez críticas à aprovação da vacinação infantil contra a covid-19 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o ministro da saúde divulgou informação falsa sobre supostas mortes provocadas pela vacina contra a covid-19.

O jornalista convidado José Maria Trindade, da TV Jovem Pan, em sua primeira pergunta, disse que ouvindo o ministro e lendo as notícias a impressão é de que são dois mundos paralelos: “um mundo publicado e um mundo real”. Em vez de questionar o entrevistado sobre pontos da atuação do Ministério da Saúde, ele apenas “levanta a bola para cortar”, para que Queiroga exponha livremente sua avaliação, começando a defesa de que o “negacionismo do governo é apenas uma construção narrativa”. Ainda que existam diversos fatos e ações do governo que podem contrapor o argumento de Queiroga de que são apenas narrativas e que tais acusações não se comprovam na prática, os entrevistadores não apresentaram tais evidências nem durante as perguntas nem após as manifestações do ministro.

Durante questionamento sobre a possibilidade de defesa, ainda hoje, do uso de hidroxicloroquina para covid-19, o entrevistador Marcello D’angelo, jornalista do Grupo Bandeirantes, citou como “a mais recente controvérsia” uma nota técnica da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), publicada dias antes da entrevista, na qual uma tabela apontava que as vacinas não tinham demonstração de segurança e que a hidroxicloroquina tinha demonstrado segurança como tecnologia de saúde para a covid-19. Ambas informações, no entanto, não correspondem aos resultados de estudos e testes realizados no país e no exterior, como podemos conferir em publicações na imprensa.

Entre as declarações imprecisas do ministro a respeito do chamado “tratamento precoce”, ele afirma que a hidroxicloroquina é “um medicamento cuja evidência científica ainda não está comprovada” em relação ao tratamento de covid-19, quando na realidade já é comprovado em diversos estudos nacionais e internacionais, que o medicamento não é eficaz e ainda acarreta riscos de efeitos colaterais aos pacientes. O ministro ainda afirma que se quer criar uma confusão entre “vacina” e “cloroquina”, “tratamento” e “prevenção”, mais uma vez ignorando que os medicamentos citados já são comprovadamente ineficazes no tratamento da doença e podem ter efeitos colaterais.

Uma informação sem confirmação apresentada por Queiroga, em torno de 17 minutos do programa, é de que “no início da pandemia fecharam unidades básicas de saúde no tal de Fique Em Casa”. Não há informação de fechamento de unidades de saúde no início da pandemia, ao contrário, como demonstraram frequentemente a cobertura da mídia, as unidades ficaram lotadas e houve abertura de hospitais de campanha para o tratamento específico dos casos graves de covid-19. E as campanhas de “Fique Em Casa” nunca incentivaram interrupções de serviços essenciais.

Veja reportagens que registraram situações que demonstram posicionamentos negacionistas e antivacina do governo federal:

– Relembre o que Bolsonaro já disse sobre a pandemia, de gripezinha e país de maricas a frescura e mimimi, Folha de S. Paulo

– ‘Gripezinha’, cloroquina, fim de pandemia: 10 informações falsas ditas por Bolsonaro sobre a Covid-19 em 2020, Agência Lupa

– Em live antivacina, Bolsonaro diz que Anvisa ‘virou um outro Poder’, Valor Econômico

– Queiroga erra e diz que 4.000 morreram por vacina; vigilância relata 1 óbito, Folha de S. Paulo

– Bolsonaro diz que pessoas em isolamento são “idiotas”, DW

– Ações de Queiroga alimentam discurso antivacina de Bolsonaro, Folha de S. Paulo

 

Corrupção

Ao explicar que o governo de Bolsonaro é uma aliança entre conservadores e liberais, Queiroga afirmou que “os conservadores defendem a apropriação adequada do recurso público” e que “não há nenhum ministro e nenhum auxiliar do presidente envolvido com corrupção”. Também não houve contraposição dos entrevistadores a essa declaração.

O próprio presidente disse, em dezembro passado, que não tem como saber se há corrupção em seu governo. A declaração foi dada no chamado “cercadinho” do Palácio da Alvorada (https://www.poder360.com.br/governo/nao-vou-dizer-que-no-meu-governo-nao-tem-corrupcao-diz-bolsonaro/, https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/12/4968540-bolsonaro-nao-vou-dizer-que-meu-governo-nao-tem-corrupcao.html, https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/07/4936260-estamos-ha-dois-anos-e-meio-sem-corrupcao-afirma-bolsonaro.html).

De acordo com levantamento da Transparência Internacional divulgado em janeiro, o Brasil caiu duas posições no ranking mundial da corrupção. O país passou a ocupar a 96ª colocação no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) no ano passado e, em 2020, estava na 94ª posição. Segundo a organização que elaborou o relatório, Bolsonaro não fez progressos no controle da corrupção e adotou medidas antidemocráticas que violam direitos (Sob Bolsonaro, Brasil volta a cair em ranking de corrupção, DW)

Além disso, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, instalada no ano passado para investigar as ações relacionadas ao enfrentamento da pandemia, resultou na aprovação de relatório que atribui crimes ao governo federal. Entre os apontamentos estão irregularidades em negociações de vacinas e demora para compra de imunizantes eficazes (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/10/cpi-da-covid-aprova-relatorio-e-pede-punicao-de-bolsonaro-e-mais-79-por-crimes-na-pandemia.shtml, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/10/27/26/cpi-da-pandemia-o-que-mudou-na-nova-versao-do-relatorio)

Merece destaque ainda o despropósito do quadro “De Bate Pronto”, em que a apresentadora Marina Machado faz uma série de perguntas que devem ser respondidas em poucos segundos, de forma bastante direta pelo entrevistado. O quadro, que poderia ser interessante, não passa de uma série de amenidades e questões sem relevância. Em dado momento ela pergunta se o ministro tem alguma fobia e diante da negativa do mesmo, um dos jornalistas convidados, fora de quadro, grita “Lula”. Queiroga retruca apenas com “molusco não é minha área”, deixando transparecer a tensão eleitoral que já se apresenta no país, apesar do ex-presidente Lula ainda não ser oficialmente candidato à corrida presidencial.

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