Já comentamos aqui na Ouvidoria Cidadã da EBC sobre o retorno do Sem Censura em formato totalmente desvirtuado do que consagrou o programa como espaço para o entretenimento de diversidade. O ano de 2022 veio confirmar que a “repaginação” transformou um dos programas mais tradicionais da TV pública brasileira em um “Boa noite, ministro”.

Fazemos referência ao “Bom dia, ministro”, um programa da comunicação de governo produzido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e Rede Nacional de Rádio até 2016, onde os ministros eram entrevistados para tratar de temas relacionadas às suas pastas.

Das seis entrevistas que foram ao ar este ano no Sem Censura, cinco foram com ministros e uma com um cantor sertanejo. No ano passado, levantamos que, de 37 programas desde a reestreia, em abril de 2021, até 12 de dezembro, quando houve uma pausa nos inéditos, 16 foram com ministros, secretários ou presidentes de estatais, além de quatro parlamentares governistas.

As demais entrevistas foram 12 esportistas, ex-esportistas ou da área esportiva, um ator, uma bióloga e dois apresentadores de TV, além de uma “homenagem ao Dia Nacional do Rádio”, entrevistando a equipe do radiojornal da comunicação de governo Voz do Brasil. Sendo que Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Internacional, e Marco Antônio La Porta, vice-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, estiveram no programa duas vezes cada. Ok, justificável em ano de olimpíada e paralimpíada.

A Ouvidoria da EBC registrou, no relatório anual de 2021, que recebeu reclamações quando o Sem Censura saiu do ar, em novembro de 2020. Quando ele retornou, em abril, a Ouvidoria destacou que o programa manteve o nome, mas que voltou parecendo um Diálogo Brasil reformatado. Porém, nesse programa havia debate de ideias, com a presença de dois convidados.

 

Cidadania e Mulher

O primeiro convidado do ano foi o ministro da Cidadania, João Roma, que falou com bastante sensacionalismo e sentimentalismo sobre o estado de calamidade vivido no sul da Bahia e no norte de Minas Gerais no fim do ano, com as enchentes e deslizamentos que afetaram centenas de milhares de pessoas, em mais de 500 cidades, deixando ao menos 50 mortos nos dois estados.

Como de costume, a apresentação do convidado fez bastante propaganda das ações do ministério, como o Auxílio Brasil e as obras de infraestrutura esportiva. E as perguntas foram mote para Roma defender o governo e justificar problemas. Por exemplo, ele disse que a inflação é “um processo mundial”, além de fazer mais propaganda dos programas, como a tarifa social da energia elétrica, o auxílio gás e o Alimenta Brasil.

O segundo convidado de 2022 foi o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que mereceu uma análise à parte desta Ouvidoria Cidadã (https://ouvidoriacidadaebc.org/sem-censura-sem-saude-sem-saida/).

No dia 31 de janeiro, o Sem Censura entrevistou a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Novamente, a apresentação da convidada trouxe os “feitos” do ministério. Entre os temas tratados por ela, esteve a defesa das comunidades terapêuticas, obviamente sem contextualizar a polêmica sobre as internações e tratamentos para usuários de drogas feitos, em grande parte, por entidades religiosas.

Em diversas ocasiões durante a entrevista, Damares tergiversa sobre a recomendação de vacinação contra a Covid-19 para as crianças, dizendo que sua pasta nunca se envolveu com o tema e que o Ministério da Saúde decidiu pela não obrigatoriedade da imunização infantil, deixando a cargo de cada família levar ou não suas crianças para se vacinarem.

Damares defendeu a aculturação indígena, dizendo que é preciso “conversar sobre práticas culturais nocivas”, e o uso de cloroquina e ivermequitina para tratar a Covid-19, cabendo a decisão à “autonomia médica”. A ministra também disse que o Disque Direitos Humanos, o Disque 100, começou a receber “espontaneamente” reclamações sobre a obrigatoriedade da vacinação contra a Covid-19.

 

Propaganda eleitoral antecipada

Chamamos a atenção para a propaganda eleitoral antecipada feita nesses dois programas, inclusive com o tema sendo colocado pelos entrevistadores. Cabe ressaltar que o Manual de Jornalismo da EBC determina que “nas disputas eleitorais, a cobertura da EBC será equilibrada e justa, tendo em conta a importância dos fatos e a relevância dos personagens”.

No histórico da empresa, a cobertura jornalística não antecipa candidaturas e elabora manuais específicos para as eleições. Mas tanto a apresentadora do Sem Censura como os jornalistas convidados não são dos quadros concursados da EBC, portanto, não devem saber disso, trazendo para a TV pública práticas da comunicação comercial, porém, com personagens governistas.

Nos casos em questão, foi tratada abertamente a candidatura de João Roma ao governo da Bahia, colocada pelos entrevistadores como sendo “contra o PT e o ex-aliado ACM Neto”. O Sem Censura divulgou também que Damares Alves deve disputar uma vaga no Senado, com as pesquisas indicando, segundo ela mesma, o primeiro lugar no Amapá e com seis estados disputando sua candidatura.

Fica difícil o Sem Censura oferecer uma cobertura eleitoral equilibrada, tendo em vista que só entrevista políticos governistas.

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