Criada para investigar as omissões do governo Bolsonaro na condução da pior crise sanitária em um século, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, chamada de CPI da Pandemia, no Senado Federal, foi aberta no dia 4 de maio com uma seção que prometia ser bombástica. E foi.

O depoimento do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que deixou o cargo no dia 16 de abril do ano passado, após apenas um mês da pandemia no Brasil, durou 7 horas e ele fez duras críticas às medidas adotadas (ou não) pelo governo para conter a propagação do vírus.

Entre outras coisas, Mandetta disse ter visto uma minuta para incluir covid-19 na bula da cloroquina; que enviou carta ao presidente em março do ano passado cobrando mudança de postura e alertando para o risco de colapso no sistema de saúde; que o presidente não seguia as orientações técnicas e tinha uma assessoria paralela, da qual participava seu filho Carlos Bolsonaro; que o governo apostava na teoria (infundada) da “imunidade de rebanho” para controlar a pandemia; e que o ministro da Economia, Paulo Guedes, não se preocupou em buscar dados da pandemia para definir as medidas econômicas.

Porém, na TV Brasil, o jornal noturno Repórter Brasil mostrou apenas Mandetta afirmando que comandava a pasta seguindo os princípios da defesa da vida, o SUS como meio e a ciência como elemento de decisão na condução da pandemia (https://www.youtube.com/watch?v=1EhWahkCe5Y), além de explicar as conversas com os gestores estaduais no início da crise.

Na Agência Brasil, o texto publicado sequer foi assinado por repórter e destacou que “Mandetta defende treinamento de profissionais” (https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2021-05/cpi-da-pandemia-mandetta-defende-treinamento-de-profissionais), além de afirmar que, até o momento em que comandava a pasta, as medidas de isolamento social eram adequadas, de acordo com a transmissão do vírus na ocasião. A ABr também replicou a fala do ex-ministro sobre a capacidade de fiscalização da Anvisa, que não seria o suficiente para conter a disseminação da doença.

Mais uma vez, a Agência Brasil e a TV Brasil se comportaram como órgãos de defesa do governo Bolsonaro, e não veículos públicos independentes de imprensa, ao não publicarem as fortes acusações feitas durante a CPI, cuja criação é considerada uma derrota política para o presidente da república.

Apenas a Radioagência Nacional fez uma cobertura mais completa do primeiro dia da CPI, com duas reportagens publicadas por volta das 21h do dia 4. Na primeira (https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/politica/audio/2021-05/em-cpi-mandetta-diz-que-nao-defendeu-kit-covid-por-nao-ter-eficacia), a matéria destacou a resposta de Mandetta sobre o porquê não corroborou com a indicação da cloroquina para tratar da Covid-19 e falou da pretensão do  governo de alterar a bula por decreto.

Na segunda matéria, publicada poucos minutos após a primeira, o áudio destaca a intenção de convocar outros integrantes e ex-integrantes do governo para depor, após terem sido citados por Mandetta (https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/politica/audio/2021-05/cpi-da-covid-vai-avaliar-se-convidam-paulo-guedes-e-fabio-Wajngarten), bem como de representantes das fabricantes das vacinas.

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