Como nomear o fato de uma pessoa invadir a festa de aniversário de um desconhecido, apenas pela motivação de não concordar com o tema escolhido para a celebração, gritando provocações, e disparar com um revólver contra o aniversariante, que conseguiu revidar e atirar no agressor antes de morrer em decorrência dos tiros?

Esta Ouvidoria Cidadã da EBC tem alguns nomes para isso: execução, assassinato, crime de ódio, crime político, seguido de legítima defesa. Sim, político. A festa em questão tinha como tema o Partido dos Trabalhadores e o ex-presidente Lula e o agressor invadiu o local gritando “aqui é Bolsonaro!”.

Mas a Agência Brasil, um veículo de comunicação pública, uma das maiores e mais importantes agências de notícias do país, além de entrar no assunto com atraso, apenas no dia seguinte ao fato ser repercutido em toda a imprensa nacional, preferiu classificar o episódio como “desentendimento” (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-07/policia-civil-investiga-morte-de-guarda-municipal-em-foz-do-iguacu).

O fato ocorreu no sábado, dia 9 de julho, em Foz do Iguaçu (PR), e vitimou o tesoureiro do PT local, Marcelo Arruda, que também já foi candidato a vice-prefeito da cidade. Marcelo, que era guarda municipal, comemorava seus 50 anos na sede da Associação Esportiva Saúde Física Itaipu, quando o agressor, Jorge Guaranho, que é agente penal federal, parou o carro na frente do local. Há vídeos das câmeras de segurança mostrando a cena, mas não há áudio disponível. O vídeo mostra Marcelo atirando pedregulhos no carro, quando Guaranho aponta uma arma para o grupo e vai embora.

Outro vídeo, das câmeras de segurança internas do salão onde ocorria a festa, mostram Guaranho atirando em Marcelo, que cai no chão. O agressor se aproxima e desfere mais tiros. Uma mulher tenta intervir e Marcelo consegue revidar, atirando de volta em Guaranho, que também cai no chão.

Testemunhas, que são muitas, afirmam que Guaranho gritava em favor de Bolsonaro e contra Lula. Ele estava no carro com a mulher e um bebê e vai embora após a agressão verbal e a primeira ameaça, afirmando que voltaria para matar todo mundo. Com isso, as testemunhas afirmaram que Marcelo resolveu pegar sua arma, temendo o que de fato aconteceu.

 

Jornalismo público?

A notícia tomou conta da imprensa nacional no domingo, dia 10. Nos veículos da EBC, nada foi mencionado neste dia. A forma como muitos veículos deram a notícia já incomoda, afirmando que houve “troca de tiros”, quando verificamos que houve uma agressão inicial seguida de legítima defesa. Mas quando a Agência Brasil decidiu entrar no assunto, publicou no lead da matéria a nota da Secretaria de Segurança Pública do Paraná, destacando apenas que a polícia investiga a morte:

“Ele [Marcelo Arruda] e o policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho se desentenderam durante a festa de aniversário de Arruda. Os dois acabaram baleados”.

O texto não explica porque se desentenderam, como se fosse uma briga de bar qualquer. Não cita o fato de o tema da festa ser o ex-presidente Lula nem de o agressor ter gritado em favor de Bolsonaro, para pessoas que ele sequer conhecia e em um evento privado. E, para piorar a “reportagem”, a Agência Brasil ainda reproduziu as notas escandalosas do presidente, em que ele afirma dispensar apoios violentos, não incentivar a violência e que “o histórico de violência não é do meu lado. É do lado de lá”.

Isso, claro, sem contexto nenhum, nem mesmo sobre a fala do presidente de “fuzilar a petralhada” no Acre, durante a campanha de 2018. Notas de pesar de outras diversas autoridades, do próprio Lula ou do PT também passaram longe do texto, o que seria o mínimo contraponto já que foram reproduzidas falas do presidente da República e de seu ministro da Justiça.

 

TV Brasil

NA TV Brasil, a notícia seguiu a mesma linha, falando que “Guarda municipal é morto em troca de tiros em Foz do Iguaçu” (https://tvbrasil.ebc.com.br/reporter-brasil/2022/07/guarda-municipal-e-morto-em-troca-de-tiros-em-foz-do-iguacu). Também não mencionou o fato do agressor ser bolsonarista e destacou a declaração do presidente sobre não apoiar qualquer ato de violência. A TV ao menos mencionou a nota de repúdio do PT.

Mas, de qualquer forma, é no mínimo estranho um presidente da república ser chamado a comentar uma morte causada por uma “troca de tiro” ou um “desentendimento”. Só faria sentido, como é o caso, se envolvesse de alguma forma o presidente.

No jornalismo das rádios e na Radioagência Nacional, a situação de censura é ainda pior, já que nada foi publicado ou veiculado a respeito.

Ao que parece, a EBC continua tentando proteger o presidente dele mesmo, escondendo declarações públicas que o prejudicam, assim como crimes de seus apoiadores.

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