Recebemos a colaboração de uma telespectadora! Ela aponta que o jornal Repórter Brasil Tarde, transmitido pela TV Brasil diariamente ao 12h15, colocou no ar uma desinformação sobre a Covid-19. O que já é grave, em se tratando de um telejornal da TV pública e que deveria primar pela correção das informações, se torna ainda mais grave quando a desinformação parte da autoridade máxima do país.

Na edição do dia 19 de julho, o apresentador Luiz Carlos Braga anuncia que “o presidente Bolsonaro já está de volta ao Palácio do Planalto”, após receber alta depois de quatro dias internado em São Paulo https://www.youtube.com/watch?v=nHz3zIGZar0. Ele chama a repórter Luana Karen, ao vivo, falando “o presidente voltou logo pro trabalho”. A repórter dá mais informações sobre o dia do presidente e informa que ele vai se reunir com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e chama um trecho de entrevista que Bolsonaro deu ao sair do hospital.

O presidente afirma:

“Vou conversar com ele a questão da covid. Óbvio, todo mundo está preocupado, obviamente, mas estudei agora, tive acesso a estudos do CDC, Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos. O que mais mata de covid, em primeiro lugar é quem está com obesidade. Segundo lugar quem está tomado pelo pavor ou pelo pânico, lembra que eu falava lá atrás? Temos que enfrentar? É um problema, temos que enfrentar, não temos alternativa”.

A imagem volta para a repórter que dá mais informações sobre os despachos do presidente e o acompanhamento médico que ele vai precisar fazer, além de dieta e exercícios físicos. Nenhuma palavra sobre a declaração de Bolsonaro.

Que a obesidade é um fator de risco aumentado para o agravamento da Covid-19 é sabido desde o início da pandemia, um ano e meio atrás. Encontramos um estudo do CDC, publicado em março deste ano (https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/70/wr/mm7010e4.htm?s_cid=mm7010e4_w), que relaciona o índice de massa corpórea com o agravamento da doença, incluindo a necessidade de intubação e morte, principalmente em pessoas a partir dos 65 anos de idade.

O estudo revela também que a obesidade afeta 42,4% dos adultos nos Estados Unidos. No Brasil, o problema cresceu nos últimos anos e chegou a 20,3% da população em 2019, segundo dados da pesquisa por telefone sobre doenças crônicas e fatores de risco (Vigitel 2019), do Ministério da Saúde (https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-05/tabagismo-brasil-cai-376-nos-ultimos-14-anos-revela-pesquisa).

Porém, essas proporções não se refletem no número de óbitos por Covid-19 nos dois países. Com população de 330 milhões de pessoas, os Estados Unidos tiveram mais mortes pela doença, passando dos 630 mil até o momento. No Brasil com população de 210 milhões, as mortes somam 560 mil. Quando se calcula as mortes por milhão de habitantes, os Estados Unidos estão em 1,897 e o Brasil 2,618, segundo os dados do Worldometer (https://www.worldometers.info/coronavirus/).

Sobre pavor e pânico serem fator de risco para a Covid-19, nenhum estudo a respeito. O que encontramos foi um estudo de Oxford que aponta problemas psiquiátricos como sequela entre os curados da Covid-19, incluindo depressão e ataque de pânico (https://www.dw.com/pt-br/covid-19-eleva-risco-de-doen%C3%A7as-mentais-e-neurol%C3%B3gicas/a-57119771), e mesmo neurológicos, como acidente vascular cerebral e demência, que acomete em maior frequência quem teve a forma grave da Covid-19.

Não sabemos se a declaração do presidente foi apenas uma piada de mau gosto, já que ele dá uma leve risada após a afirmação, ou mais uma tentativa de desacreditar a gravidade da pandemia. Há um ano e meio é preciso “enfrentar o problema”, mas parece que Bolsonaro não se importa com ele. Ou teria enfrentado a pandemia sem deixar chegar a esse número absurdo de mortos. É muito grave a TV Pública colocar no ar uma declaração dessa sem contexto nem contraposição.

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