Por Intervozes para a Carta Capital

O levantamento feito para esta análise teve como corpus todas as matérias publicadas ao longo da quarta-feira

 

Por Nataly Queiroz, Paulo Victor Melo e Iara Moura*

A cobertura da Agência Brasil dos atos no 7 de setembro colocou na centralidade da pauta desfiles cívicos e a presença do Presidente da República, Jair Bolsonaro, secundarizando a cobertura do Grito dos Excluídos, evento que também marca a agenda de atos públicos há quase 30 anos. O levantamento feito para esta análise teve como corpus todas as matérias publicadas ao longo desta quarta-feira, marcadas na categoria 7 de setembro e 7 de setembro de 2022. De forma geral, a Agência Brasil apresentou uma cobertura do dia da independência amordaçada, refém do jornalismo declaratório, centrado em atos de elogio patriótico, cujas fontes diretas e menções se voltam prioritariamente ao presidente, outros agentes do governo federal e forças armadas.

No total, foram publicadas na Agência Brasil 13 matérias, sendo dez notícias (factuais) e três reportagens temáticas com foco histórico sobre a data, personagens e símbolos nacionais. Esses contaram com uso de recursos multimídias como vídeo e áudio. As coberturas factuais se voltaram, majoritariamente, para os atos cívicos do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, os quais contaram com a presença de Bolsonaro, contemplando também pautas sobre a agenda dos presidenciáveis, anúncio de como se dará a cobertura da Empresa Brasil de Comunicação dos desfiles e o cancelamento dos desfiles em Santa Catarina devido às condições climáticas. Os redutos de votos bolsonarista tiveram maior visibilidade. As demais regiões só aparecem na cobertura do Grito dos Excluídos (mais abaixo). As principais fontes ouvidas ou mencionadas nas matérias factuais (notícias) foram o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro e menções às forças armadas e outras autoridades políticas. Em apenas uma matéria sob as categorias analisadas foram ouvidas duas fontes comuns, uma farmacêutica e uma babá, ambas de teor patriótico. Os demais candidatos só aparecem em uma pauta sobre a agenda de campanha, onde são mencionados todos/as os/as presidenciáveis.

As pautas dos desfiles em que estavam Bolsonaro têm uma característica que chama atenção: os textos não denominam as pessoas presentes como “manifestantes”, são chamadas de “pessoas” e “apoiadores” do presidente. O tom é eleitoral e favorável ao presidente. As falas escolhidas pelos jornalistas, feitas por Bolsonaro, são voltadas ao respeito à constituição, crescimento econômico pós-pandemia e programas sociais. Os dados citados nos discursos são duvidosos e foram transcritos sem contrapontos. Não é mencionado o trecho em que Bolsonaro se autointitula “imbrochável”. Isso, por si só, denuncia um jornalismo não crítico e de assessoramento do gabinete presidencial.

Em uma matéria, sem crítica, é mencionada a presença de tratores e do dono da Havan em tom de elogio ao papel do agronegócio no país. Há, assim, espaço privilegiado para setores e figuras públicas que manifestam abertamente apoio à reeleição de Bolsonaro (o mercado representado pela Havan, Forças armadas e agronegócio).

Grito dos excluídos

Diferentemente de anos anteriores, a cobertura do Grito não foi inserida na categoria 7 de setembro. As categorias da cobertura do Grito foram “Grito dos Excluídos”, “Movimentos sociais”, “Manifestações”.

A única matéria que trata do Grito fala das “pautas políticas” de quem participou e menciona os diversos estados onde aconteceram os atos. Há ainda um entretítulo que descreve a agenda como uma política de ação popular no 7 de setembro, ainda que contraditoriamente não tenha, esta pauta, sido inserida como categoria 7 de setembro, ressaltando o foco político eleitoral e militarista da cobertura.

Como os chapéus, categorias e hashtags são indexadores de informações importantes nos portais e redes, é interessante atentar que, no final da noite, na página inicial da Agência Brasil, a cobertura dos atos cívicos do 7/9, onde estavam o presidente, aparece com o chapéu “Independência”, já o do Grito dos Excluídos está como “eleições”, reforçando o tom de neutralidade dos atos da presidência e o tom “partidário” do Grito.

Repórter Brasil

Também no jornalismo televisivo da EBC sobressaiu-se a cobertura acrítica e a exaltação ora das forças armadas, ora do presidente e candidato à reeleição. Tropas, cavalarias, veículos blindados, aeronaves, apresentação de bandas militares, hasteamento de bandeiras, desfiles marítimos, tiros de canhão e saltos de paraquedistas, dentre outras expressões das Forças Armadas e órgãos de segurança pública, tiveram destaque na cobertura do Repórter Brasil, telejornal noturno da TV Brasil.

Dos 40 minutos de duração do programa, aproximadamente metade foi dedicada a matérias sobre os desfiles cívico-militares em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Eventos oficiais em outras cidades, como Florianópolis, Salvador, Curitiba e Manaus, ainda que com menor visibilidade, também foram pautados.

Antes, no Repórter Brasil Tarde, edição vespertina do telejornal, que foi apresentado ao vivo da “Mesa do Imperador” no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, uma reportagem apresentou o que a repórter qualificou como “os melhores momentos” da “manifestação cívico-militar”, dando evidência ao atual presidente da República.

A título de exemplo, nos cinco minutos da reportagem, as expressões “presidente Jair Bolsonaro” ou “presidente Bolsonaro” foram mencionadas seis vezes e imagens do presidente foram exibidas em sete momentos, sendo duas em que ele apareceu saudando o público. Ainda durante a reportagem, a jornalista informou que “câmeras exclusivas da TV Brasil acompanharam o presidente”.

A cobertura do Repórter Brasil também deu ênfase a uma noção de patriotismo alinhada ao atual governo. Essa ideia de patriotismo apareceu, por exemplo, a) no depoimento de um entrevistado com camisa amarela da seleção brasileira de futebol, que disse os atos serem importantes para “ensinar ao filho o que é ser brasileiro”; b) na voz de uma jornalista da emissora, que encerrou a reportagem dizendo que “o público voltou para casa com o sentimento de patriotismo que a data inspira aflorar”; e c) na seguinte afirmação de Bolsonaro: “…sabemos que aqui é a terra prometida, aqui é o paraíso. Luta pela sua pátria e pela liberdade. Com liberdade, você fica sem limites”.

As declarações indiretas de ameaça ao STF, os discursos machistas, a transformação de eventos oficiais do Estado brasileiro em comícios foram ignoradas pelo telejornal da TV Brasil, que, assim como todas as emissoras que integram a Empresa Brasil de Comunicação, transforma-se progressivamente, desde o início da atual gestão presidencial, em mídias a serviço do projeto político de morte que governa o Brasil.

Longe de ser fato isolado, tal cobertura é demonstrativa do que apurou o 4º Dossiê de Censura e Governismo na EBC, segundo o qual, de agosto de 2021 a julho de 2022, foram contabilizadas 292 denúncias de censura e governismo nos veículos públicos da Empresa Brasil de Comunicação (EBC): Rádio Nacional, Rádio MEC, TV Brasil, Agência Brasil, Radioagência Nacional e as respectivas redes sociais. O levantamento lançado em agosto último foi elaborado pela Comissão de Empregados da EBC e os Sindicatos dos Jornalistas e dos Radialistas do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo. Foram contabilizados 228 casos de governismo e 64 de censura no formulário de denúncia. Os responsáveis pelo levantamento lembram que “nem todos os casos são denunciados”.

Ainda segundo o dossiê, o uso dos veículos para promoção pessoal do presidente Jair Bolsonaro se aprofundou, principalmente na TV Brasil, que passou a ter a grade unificada com o canal governamental NBR em 2019. No período analisado, foram ao todo 274 eventos com o presidente transmitidos ao vivo, que ocuparam ilegalmente a grade da TV pública por 192h58min18s. No período anterior, foram 208 eventos, que somaram 157h42min29s.

Neste sistema de comunicação que nasceu público e foi capturado pelo governo de plantão, infelizmente, já não espanta a ausência de um minuto sequer em seu principal telejornal para as manifestações do Grito dos Excluídos, que aconteceram em 51 cidades de 25 estados do país.

Há um mês das eleições, as candidaturas exploram diversas possibilidades para conquistar o eleitorado. Bolsonaro, por sua vez, aposta na continuidade de uma estratégia corrupta de apropriação da estrutura pública em favor próprio e de difusão de desinformação, discurso de ódio e incentivo à violência política. No bicentenário da independência do país, cabe às brasileiras e aos brasileiros, seguir atentos e na luta em defesa de uma comunicação pública realmente independente, sem o jugo de nenhum capitão. Vale lembrar que, em outubro de 2022, o futuro da EBC, jurada e ferida de morte pelo atual presidente, também estará em jogo.

 

Paulo Victor Melo é jornalista, professor e pesquisador de políticas de comunicação. Integrante do Intervozes

Nataly Queiroz é jornalista, doutora em Comunicação, professora universitária e integrante do Intervozes

Iara Moura é jornalista, mestra em Comunicação e Coordenadora Executiva do Intervozes

 

Link para a publicação original: https://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/ebc-fez-cobertura-oficialesca-e-foi-assessora-de-bolsonaro-no-7-de-setembro/

 

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